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Para onde vai o navio do centro político na eleição para presidente em 2018?

Entretanto, para além do ressurgimento de um discurso agressivo, o que temos acompanhado nos discursos de importantes atores políticos e de comentaristas jornalísticos é uma espécie de clivagem rumo a uma pretensa racionalidade, que reúne o desenvolvimento social com a responsabilidade fiscal.

As incertezas políticas e sociais do pós-impeachment da ex-presidente Dilma (PT), somadas a um contexto de recessão e déficits macroeconômicos, carregaram em seu bojo, entre tantas apostas, um cenário de (re)ascensão de uma direita tipicamente identificada com um autoritarismo deveras tacanho.

Entretanto, para além do ressurgimento de um discurso agressivo, o que temos acompanhado nos discursos de importantes atores políticos e de comentaristas jornalísticos é uma espécie de clivagem rumo a uma pretensa racionalidade, que reúne o desenvolvimento social com a responsabilidade fiscal. Essa proposta tem se materializado em uma agenda de reformas estruturais, conduzida pelo sucessor da ex-presidente Dilma, o presidente Michel Temer (MDB), que desde os primórdios do documento conhecido como “Uma ponte para o futuro”, tem constituído uma retomada do crescimento a partir da reconquista da confiança do dito “mercado”, e assim formando uma lógica de transições em termos de políticas públicas, a partir de reajustes orçamentários, que para 2018, por exemplo, é de R$ 16,2 bilhões, além das reformas na legislação trabalhista, educacional já aprovadas e ainda pretende-se estender ao contexto previdenciário.

Todas essas medidas trouxeram sinais de recuperação econômica. A taxa de desemprego entre 2016-17 recuou quase 2%, e a previsão – talvez ainda muito otimista – é a de que sejam abertos novos 740 mil postos de empregos formais em 2018. A previsão para o crescimento do produto interno bruto (PIB) fica entre 2,2% e 3,5%. Toda essa agenda tem sido fruto de um esforço político de uma ampla coalizão governamental de partidos que convergem ao centro político.

Dois fatores não podem ser ignorados. O primeiro é o esforço orçamentário que o Governo fez para conseguir a aprovação de suas agendas, mas, o que se pode constatar empiricamente é no sucesso do cumprimento de uma agenda pré-estabelecida por um amplo consenso entre os partidos que, se não eram identificados, fizeram esforços para se identificar no chamado campo do “centro” político. O segundo fator é a tentativa dos partícipes desse processo de capitalizarem sua parcela de responsabilidade no tímido avanço da economia brasileira.

Um exemplo é o “capitão” do navio das reformas do governo Temer, o ministro da Fazenda, Henrique Meireles (PSD), que tenta repetir o cenário de 1994, no qual o então ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), através de uma série de medidas, incluindo a implantação do “Plano Real”, conseguiu se cacifar para concorrer e se eleger à presidência.

Outro que entra na disputa é o presidente da Câmara dos deputados, Rodrigo Maia (DEM), que é conhecido por uma plataforma mais conservadora, tem dado entrevistas nas quais se diz liberal e o principal defensor e articulador das reformas na Câmara. O deputado já manifestou sua intensão de concorrer à presidência, mas isso só será decidido de fato na convenção do DEM em fevereiro de 2018.

Henrique Meireles e Rodrigo Maia
Henrique Meireles e Rodrigo Maia – Fonte: Folha de São Paulo, 2 de fevereiro de 2018.

Após a mudança de nome, o MDB é outro partido que tenta criar uma viabilidade, mas além da dificuldade de estabelecer nomes que tenham alcance nacional, tendo em vista a impopularidade do presidente Michel Temer e de outros tantos investigados na “Operação Lava Jato”, há um tradicional receio após os insucessos de 1989, conseguindo 3,5% dos votos, com Ulysses Guimarães e 4,5% dos votos em 1994, com Oréstes Quércia, o partido é visto com certo ceticismo mesmo por seus quadros mais importantes.

Quem demonstra mais possibilidades de um alcance nacional é o PSDB com Geraldo Alckmin. O governador de São Paulo ainda precisa passar pelas prévias do partido, que foram reivindicadas pelo prefeito de Manaus, Arthur Virgílio. No entanto, a capilaridade eleitoral dentro do PSDB por parte do governador tucano é bem maior, por isso é dada como certa sua candidatura. Entretanto, certas alas do PSDB e mesmo o próprio ex-presidente Fernando Henrique, veem dificuldades em Alckmin viabilizar sua candidatura, que em algumas pesquisas não chega a dois dígitos. No entanto, não pode-se duvidar da astúcia política do governador Alckmin que tem o costume de atrair apoios de outros espectro ideológicos para o seu campo, como fez com o PSB em São Paulo – essa é inclusive a “arma” mais forte que as candidaturas de entro têm.

Alckmin e Temer
Alckmin e Temer. Fonte: Revista Exame, 11 de Janeiro de 2018.

No entanto, para além de certezas, o cenário ainda é deveras nebuloso. Não há precisão no que tange às pesquisas de opinião, que por enquanto só conseguem captar uma vaga identificação do eleitorado com os pretensos futuros candidatos e isso pode ser aplicado tanto a candidaturas de centro quanto à esquerda – que enfrenta as implicações da inviabilidade da candidatura de Lula (PT) e ao mesmo tempo se afastam, tentando lançar Ciro Gomes (PDT), Marina Silva (REDE) e Manuela D’avilla (PCdoB) –  e à direita – com a falta de estrutura partidária que a candidatura de Bolsonaro (PSL) enfrenta, sendo forte com públicos bastante desconexos com assuntos de maior profundidade analítica, como as pautas econômicas e até por isso sua candidatura é tida como um mais barulhenta do que efetiva.

Também é cedo para afirmar categoricamente que haverá uma dispersão de candidaturas, como em 1989. Deve-se cogitar, por exemplo, alianças tradicionais como entre PSDB e DEM, ou mesmo envolvendo MDB e PSD nessa conjuntura. No entanto, as atuais mudanças econômicas, a força adquirida pelos partidos de centro nas eleições municipais de 2016, e a força da estrutura partidária, indicam um cenário de “vento e popa” para as candidaturas de centro, que encontram refúgio na “brisa” da retomada do crescimento econômico e a busca de alianças que alicercem e garantam sua chegada a terra firme em outubro de 2018.

 

Guilherme Carvalho é professor universitário de Ciência Política, é Especialista em Políticas Públicas e Mestrando em Ciência Política pela Universidade Federal de Goiás.

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Guilherme Carvalho

Guilherme Carvalho é professor universitário de Ciência Política, é Especialista em Políticas Públicas e Mestrando em Ciência Política pela Universidade Federal de Goiás.

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