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SOU APARTIDÁ…OPS! NÃO, PERA!

Desde junho de 2013 há uma ascensão de novos movimentos sociais, que apesar de suas críticas ao sistema político, de uma forma ou de outra, têm se engajado no processo eleitoral ou de politização de camadas da sociedade em diversas esferas e sobre variadas temáticas.

Algo que sempre debati com meus alunos em sala de aula foi sobre a necessidade do engajamento político para ver as transformações na prática. Mas nunca advoguei pela militância expressa por um partido específico, até porque seria antiético. Mas uma das respostas que sempre ouvia era “sou apartidário”. Então, um dos meus principais exercícios, como professor de Ciência Política era o de explicar um movimento que estava ocorrendo em nosso país.

Desde junho de 2013 há uma ascensão de novos movimentos sociais, que apesar de suas críticas ao sistema político, de uma forma ou de outra, têm se engajado no processo eleitoral ou de politização de camadas da sociedade em diversas esferas e sobre variadas temáticas.

SOU APARTIDÁ...OPS! NÃO, PERA!
Foto: Revista Época, maio de 2017.

Independentemente da matiz ideológica, movimentos como o “MBL”, “vêm pra rua”, “Agora!”, “RAPS”, “Acredito” e “nova democracia”, nasceram da disfunção e do descrédito do sistema partidário tradicional. Mas o quão “novo” são esses movimentos que se intitulam “fora do sistema partidário”? O MBL mesmo elegeu vários de seus adeptos nas eleições municipais de 2016, além de terem se engajado de forma  bastante assídua no processo de impeachment da ex-presidente Dilma.

SOU APARTIDÁ...OPS! NÃO, PERA!
Foto: Jornal Hoje em Dia, novembro de 2016.

A exemplo do que ocorreu na Europa, com os casos do “Syriza” na Grécia e o “Podemos” na Espanha, nasceram a Rede Sustentabilidade, a “Raiz Cidadanista” e o “Livres”, que buscaram se integrar ou se tornar parte do sistema partidário formal.

SOU APARTIDÁ...OPS! NÃO, PERA!
Foto: Huffington Post, dezembro de 2017.

Vendo o desenvolvimento dessa tendência, impulsionada pelo repúdio da sociedade pelas práticas ilícitas encrustadas no seio dos partidos políticos, que um dia foram a renovação, à exemplo de MDB, PT e PSDB, o sistema político-partidário tradicional tentou se engajar nesse movimento de renovação, mas ficou apenas no nome. Uma tentativa de apontar uma “nova” roupagem, a partir de mudanças nos nomes das siglas, como ocorreu com a remodelação do DEM, após ser “secado” pela criação do PSD, também o nascimento do Solidariedade, da Rede Sustentabilidade, do Podemos (brasileiro), próprio PMDB, que diz tentar remontar seus tempos “gloriosos” de MDB, retirando o “P”, o “Avante” – antigo PTdoB – e tantos outros que sempre ensaiam uma tentativa de “renoção” a partir da mudança de nome, como o PT cogitou após o processo de impeachment.

SOU APARTIDÁ...OPS! NÃO, PERA!
Fonte: Minas Repórter, dezembro de 2017.

A excessiva gama de novos partidos com nenhuma ou irrisória representatividade, à falta de uma reforma política que impusesse cláusulas de desempenho, transmitiram para a sociedade um espécie de desânimo ainda maior, ao ver que “não há salvação” dentro das vias formais em partidos que são profundamente oligarquizados por elites tradicionais e isso criou o discurso de “eu sou apartidário” – o que por si só é uma manifestação partidária. Essa declaração remonta um posicionamento mais tradicional do que se imagina. A ideia de partido é em si, tomar partido de algo.

O que precisa ser compreendido é que não há salvação para fora do engajamento político. As demandas sociais por políticas públicas de acesso aos mais diversos serviços, hoje ecoam pelas redes sociais e são captadas por quem se engaja nesse processo de debate virtual – por mais agressivo que possam ser.

Esses novos movimentos sociais, nada mais são do que novas formas de representatividade política, sem que se use o “P” de partido. Mas sim, têm a intenção de se engajar eleitoralmente. Sim, têm a intenção de angariar militantes para suas causas. E sim, ambicionam poder para propor e executar suas visões de sociedade ideal! Mas o que tem de errado nisso? Não há transformação possível sem que se possa ter capacidades para realiza-las.

Ao finalizar essa explicação, eu sempre realizava essa pergunta: qual é a renovação que preciso? Se a resposta não incluir a sua participação política nos temas que te interessam, lamento informar, mas com o “p” ou sem o “p” de partido, a transformação não ocorrerá pela via do sofá de casa. Não existe apartidarismo! Todos somos militantes de nossas próprias causas.

 

Guilherme Carvalho é professor universitário de Ciência Política, é Especialista em Políticas Públicas e Mestrando em Ciência Política pela Universidade Federal de Goiás.

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Guilherme Carvalho

Guilherme Carvalho é professor universitário de Ciência Política, é Especialista em Políticas Públicas e Mestrando em Ciência Política pela Universidade Federal de Goiás.

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